O Silêncio Antes do Nome

Person in hooded jacket dissolving into smoke standing on rocky path surrounded by mist

Antes de sermos alguém, havia apenas presença.

Não havia ainda uma história para defender, um passado para carregar, uma imagem para proteger ou um futuro para conquistar. Havia somente este fato simples e misterioso: ser.

Depois vieram os nomes.
Vieram as lembranças.
Vieram as feridas, os desejos, as comparações, os medos e as esperanças.
E, pouco a pouco, aquilo que era apenas presença começou a se confundir com uma pessoa.

Chamamos isso de vida.

Mas talvez a vida, como a vemos, seja também uma espécie de amnésia. Não uma falha da memória comum, mas um esquecimento mais profundo: o esquecimento de que, antes de qualquer pensamento sobre nós mesmos, já somos.

O ego vive de afirmações:
“eu sou isto”,
“eu fui aquilo”,
“eu preciso disso”,
“eu não posso perder aquilo”.

Mas a consciência silenciosa não precisa se afirmar. Ela simplesmente permanece. Ela estava presente quando éramos crianças, está presente agora e estará presente no último instante da experiência humana.

O corpo mudou.
A mente mudou.
As crenças mudaram.
As dores mudaram.
Mas algo permaneceu testemunhando todas essas mudanças.

Esse algo não é uma coisa.
Não é uma ideia.
Não é uma religião.
Não é uma crença espiritual.

É a simples luminosidade de estar consciente.

Talvez despertar não seja adquirir uma nova identidade espiritual. Talvez seja exatamente o contrário: deixar cair, pouco a pouco, a necessidade de ser alguém diante de Deus, diante do mundo e diante de si mesmo.

Não se trata de desprezar a vida humana. O corpo sente, a mente sofre, o coração se parte, os relacionamentos nos desafiam. Mas tudo isso aparece dentro de uma presença mais vasta, silenciosa e intacta.

Quando esquecemos essa presença, o mundo parece absoluto.
Quando a recordamos, o mundo continua aparecendo, mas perde o poder de nos definir completamente.

Então o caminho talvez seja simples, embora não seja fácil:

parar por um instante,
respirar,
olhar para dentro,
e perguntar silenciosamente:

Antes do meu nome, o que sou?
Antes da minha história, o que permanece?
Antes do medo, quem está aqui?

A resposta não vem como frase.
Vem como paz.

Comentários

Deixe um comentário