Há momentos em que o silêncio não aparece como ausência de som. Ele chega através do próprio som.
O vento atravessa as árvores, move as folhas, toca as janelas e, por alguns instantes, interrompe a narrativa interior. Não porque a mente tenha compreendido alguma coisa, mas porque foi surpreendida por algo anterior às suas explicações.
Nesse instante, o vento não é apenas um objeto ouvido por alguém. Existe somente o ouvir. A separação entre aquele que escuta e aquilo que é escutado torna-se menos sólida. O mundo deixa de parecer exterior e a consciência deixa de parecer encerrada dentro de uma pessoa.
Talvez seja por isso que certos sons da natureza nos conduzam tão facilmente ao silêncio. Eles não exigem interpretação. O vento não apresenta uma doutrina, não oferece respostas e não pede que acreditemos nele. Apenas sopra.
A mente, porém, logo retorna e diz:
“Eu tive uma experiência de silêncio.”
Mas, durante o instante verdadeiro, onde estava esse “eu”? Ele surge depois, apropria-se do acontecimento e transforma o mistério em memória. O pensamento declara ser o proprietário de algo que ocorreu justamente quando sua presença havia diminuído.
O silêncio não pertence à pessoa. A pessoa aparece dentro do silêncio.
Também não é necessário esperar por uma experiência extraordinária. O mesmo fundo silencioso está presente enquanto ouvimos uma música, observamos o céu, sentimos a respiração ou percebemos um pensamento atravessando a mente.
O pensamento surge e desaparece. O som surge e desaparece. A sensação surge e desaparece. Entretanto, aquilo em que todos eles aparecem não chega nem parte.
Quando o vento cessa, o silêncio não começa. Ele já estava presente antes, durante e depois do vento.
Talvez o vento apenas o tenha revelado.




