Dois homens, uma palavra

Um vendia cigarros numa ruela de Bombaim. O outro era carpinteiro numa aldeia da Galileia. Entre os dois há dezenove séculos, línguas diferentes e mundos que nunca se tocaram.

Sri Nisargadatta Maharaj (1897–1981) foi um mestre indiano do Advaita, palavra que quer dizer “não-dois”: a ideia de que, no fundo, só existe uma realidade. Jesus de Nazaré não falou em Advaita. Falou em Pai, em Reino, em amor.

E, no entanto, os dois apontaram para a mesma coisa simples, tão próxima que quase ninguém repara nela: o fato de ser. As duas palavras mais curtas de qualquer língua. Eu sou.

Este texto não quer dizer que os dois ensinaram a mesma doutrina. Quer apenas colocá-los lado a lado e ver o que acontece quando um ilumina o outro.

“Antes que Abraão existisse, Eu Sou”

No Evangelho de João, Jesus diz uma frase que escandalizou quem ouvia: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8:58). Ele não diz “eu era”. Diz “Eu Sou”, no presente, como quem fala de algo fora do tempo.

A frase ecoa a resposta de Deus a Moisés na sarça ardente: “Eu Sou o que Sou” (Êxodo 3:14). E ecoa também o Salmo: “Aquietai-vos, e sabei que Eu Sou Deus” (Salmo 46:10).

Nisargadatta chegou ao mesmo ponto por outro caminho. Seu mestre lhe deu uma única instrução: ficar com a sensação de “eu sou”. Não “eu sou fulano”, nem “eu sou isto ou aquilo”. Apenas o sentir-se existindo, antes de qualquer pensamento. Ele obedeceu por cerca de três anos, e isso bastou.

Lidos juntos, os dois se iluminam. O “Eu Sou” de Jesus não é o nome do homem de Nazaré. É aquilo que já era antes de Abraão, antes do tempo. E o “eu sou” de Nisargadatta não é o vendedor de cigarros. É o que está presente em qualquer um que diga, em silêncio: eu existo.

O Pai e o Absoluto

Para Nisargadatta, o “eu sou” ainda não é o fim da viagem. É a porta. Antes do “eu sou” existe o Absoluto, que ele chamava de Parabrahman (“o que está além de tudo”): aquilo que não precisa nem saber que existe. O “eu sou” nasce dele, e por ele se volta para ele.

Jesus fala de um jeito curiosamente parecido. Ele diz “Eu sou a porta” (João 10:9). Diz “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). E diz também “o Pai é maior do que eu” (João 14:28).

As duas frases parecem se contradizer, até que se lê Nisargadatta. O “Eu Sou” é um com a Fonte, e ao mesmo tempo aponta para além de si, para algo maior e anterior. É nesse sentido que se pode ler, de forma contemplativa, outra frase: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Ninguém chega à Fonte a não ser passando pelo simples “eu sou”.

Perder a vida para encontrá-la

“Quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 16:25). E ainda: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João 12:24).

Nisargadatta diria que o que morre não é você. É a ideia de ser uma pessoa separada, presa a um corpo, com uma história que começa no nascimento e termina no túmulo. Ele insistia que aquilo que realmente somos nunca nasceu e, portanto, não pode morrer.

Os dois falam da mesma morte: a do falso, não a do verdadeiro. O grão perde a casca. O que estava dentro dela sempre esteve vivo.

O amor como ponte

Nisargadatta deixou uma frase que muita gente guarda: a sabedoria mostra que eu não sou nada; o amor mostra que eu sou tudo; e entre os dois a vida corre. Ele não escolheu entre o vazio e o amor. Ficou com os dois.

Jesus resumiu toda a Lei em amar a Deus e “amar o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Lido à luz do “Eu Sou”, o “como a ti mesmo” ganha um sentido novo. Se o mesmo “Eu Sou” está em mim e em você, o próximo não é outro. É o mesmo ser, olhando por outros olhos. E “o Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21) porque não há outro lugar onde ele possa estar.

Na prática, os dois pedem quase a mesma coisa:

  • Ficar quieto alguns minutos e sentir “eu sou”, sem acrescentar nada.
  • Notar que esse “eu sou” não tem idade, nem nome, nem história.
  • Ao encontrar outra pessoa, lembrar que o mesmo “Eu Sou” está ali também.

Um vendedor de cigarros e um carpinteiro. Nenhum dos dois era teólogo. Os dois apenas olharam para o que estava mais perto, e viram ali a eternidade.

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