Há um instante silencioso antes de qualquer pensamento aparecer.
Antes de dizer “eu estou preocupado”, algo já está presente.
Antes de dizer “eu sou este corpo”, algo já sabe que o corpo é percebido.
Antes da história pessoal, antes das lembranças, antes dos medos e esperanças, há uma presença simples, sem nome, sem idade e sem forma.
Nós quase nunca permanecemos aí.
A mente surge e imediatamente começa a construir um personagem: meu passado, meus problemas, meus desejos, minhas culpas, minhas conquistas, minhas perdas. Assim nasce o “alguém”. Um centro psicológico que parece sólido, mas que depende inteiramente da memória, da linguagem e da identificação.
Sem pensamento, onde está esse alguém?
Esta pergunta não é uma teoria. É uma porta.
Quando observo com sinceridade, percebo que o “eu” que sofre é feito de imagens. Ele precisa ser repetido para continuar existindo. Precisa de narrativa. Precisa de comparação. Precisa de tempo. Precisa dizer: “eu fui”, “eu serei”, “eu perdi”, “eu preciso”.
Mas a presença que percebe tudo isso não precisa dizer nada.
Ela simplesmente é.
Nisargadatta chamava atenção para esse fato direto: antes de qualquer coisa, há o sentimento básico de existir, o puro “Eu Sou”. Não o “eu sou Clovis”, “eu sou homem”, “eu sou velho”, “eu sou espiritual”, “eu sou pecador”, “eu sou iluminado”. Apenas: Eu Sou.
Um Curso em Milagres aponta para algo semelhante quando desfaz a realidade do ego e do mundo separado. O problema não é o corpo em si, nem a vida cotidiana, nem as relações humanas. O problema é acreditar que a identidade verdadeira está presa a tudo isso.
A amnésia do Absoluto é exatamente esta: esquecer o Ser e tomar a história como verdade final.
Despertar, então, não é virar uma pessoa especial.
Não é acumular experiências místicas.
Não é criar uma nova identidade espiritual.
É algo muito mais simples e mais radical: perceber que o personagem nunca foi o fundamento do ser.
A paz não precisa ser fabricada. Ela aparece quando a mentira central enfraquece.
A mentira é: “sou apenas este eu separado, ameaçado pelo mundo”.
A verdade silenciosa é: antes de qualquer medo, antes de qualquer nome, antes de qualquer papel, Eu Sou.
E talvez toda prática espiritual verdadeira seja apenas isso:
voltar, repetidas vezes, ao que nunca saiu.
Gassho.

Deixe um comentário