Um dos ensinamentos mais radicais de Nisargadatta Maharaj pode ser condensado numa frase:
Eu sou o Absoluto.
Mas imediatamente surge uma pergunta:
Quem é esse “eu”?
Se o “eu” significa a pessoa — este corpo, esta biografia, esta personalidade, este conjunto de memórias, medos, desejos e experiências — então a frase se transforma apenas em outra forma de ego espiritual.
A pessoa não é o Absoluto.
A pessoa aparece e desaparece. O corpo muda. Os pensamentos vêm e vão. Os sentimentos surgem e desaparecem. A personalidade foi moldada pelo tempo e pelas circunstâncias.
Tudo isso é conhecido.
E aquilo que é conhecido não pode ser o conhecedor último.
Começa então a investigação:
Sou o corpo?
O corpo é percebido.
Sou a mente?
Os pensamentos são percebidos.
Sou minhas memórias?
As memórias aparecem na consciência.
Sou a sensação de ser uma pessoa?
Até a sensação “eu sou este indivíduo particular” pode ser observada.
Talvez então cheguemos ao simples sentimento:
Eu Sou.
Antes de “eu sou Clovis”, “eu sou feliz”, “eu estou com medo”, “eu sou espiritual”, existe simplesmente o sentimento nu de existência:
Eu sou.
Para Nisargadatta, esse puro sentimento de ser é extraordinariamente importante. Ele orienta repetidamente o buscador a permanecer com o Eu Sou, sem acrescentar nada a ele.
Mas nem mesmo aqui termina a investigação.
O próprio “Eu Sou” aparece.
Houve um momento, antes de acordarmos pela manhã, em que esse sentimento estava ausente. No sono profundo não existe o conhecimento pessoal “eu sou”. A consciência surge, permanece durante algum tempo e novamente desaparece.
É então que Nisargadatta realiza seu movimento mais radical:
O Absoluto é anterior até mesmo à consciência.
Isso cria um estranho paradoxo.
Quando digo:
“Eu sou o Absoluto”,
quem está falando?
Se é a pessoa que fala, a frase é falsa.
Se é a consciência que fala, a frase ainda é provisória.
O próprio Absoluto não precisa anunciar:
“Eu sou o Absoluto.”
Ele simplesmente é.
Por isso, talvez a frase não deva ser usada apenas como afirmação.
Ela pode transformar-se numa investigação:
Eu sou o Absoluto.
Quem é esse “eu”?
O corpo?
Não.
A personalidade?
Não.
A mente?
Não.
O buscador espiritual?
Não.
A testemunha?
Até a testemunha precisa finalmente ser questionada.
Pois a testemunha ainda pertence à estrutura da experiência: existe algo testemunhado e alguém testemunhando.
Nisargadatta nos empurra para além até dessa posição extremamente sutil.
Não crie uma identidade espiritual final chamada “a Testemunha”.
Não substitua o ego comum por um ego metafísico.
A investigação precisa consumir até aquele que está realizando a investigação.
É aqui que Nisargadatta inesperadamente se aproxima de um movimento central de Um Curso em Milagres.
O Curso também desfaz repetidamente a identidade que fabricamos para nós mesmos.
Não sou simplesmente o corpo que vejo.
Não sou a história que defendo.
Não sou a vítima que acredito ser.
Não sou o eu culpado que o ego afirma que sou.
E, em última análise, a salvação não consiste em aperfeiçoar essa identidade separada.
Consiste em despertar dela.
As linguagens de Nisargadatta e de Jesus em Um Curso em Milagres não são idênticas.
Nisargadatta fala do Absoluto, anterior à consciência.
O Curso fala de Deus e Seu Filho, cuja realidade jamais foi verdadeiramente alterada pelo sonho da separação.
Ainda assim, ambos apontam para um reconhecimento devastadoramente simples:
aquilo que normalmente chamo de “eu” não pode ser aquilo que verdadeiramente sou.
E esse reconhecimento não deveria transformar-se em mais uma crença.
Deveria transformar-se em olhar.
Quando a raiva aparece:
Quem está com raiva?
Quando o medo aparece:
Quem está com medo?
Quando a culpa aparece:
Quem é culpado?
Quando o orgulho aparece:
Quem quer ser espiritualmente avançado?
E até quando a paz aparece:
Quem reivindica essa paz como “minha”?
Não precisamos forçar uma resposta intelectual.
Talvez a prática mais profunda seja permitir que cada resposta caia.
“Sou o corpo.”
Visto.
“Sou a mente.”
Visto.
“Sou a consciência.”
Visto.
“Sou a testemunha.”
Visto.
“Eu sou o Absoluto.”
E finalmente até essa frase é abandonada.
O que permanece não pode ser transformado em objeto.
Não pode ser possuído.
Não pode tornar-se uma conquista.
O buscador não pode levá-lo para casa como um troféu, porque o próprio buscador fazia parte daquilo que estava sendo questionado.
Talvez esta seja a ironia final:
Começamos dizendo:
“Quero descobrir o Absoluto.”
Depois dizemos:
“Eu sou o Absoluto.”
E finalmente não existe necessidade de dizer coisa alguma.
O Absoluto nunca se esqueceu de si mesmo.
Somente a pessoa imaginada acreditou que havia alguma coisa a encontrar.

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