Antes da Consciência, o Amor: aquilo que não precisa de um eu

Quando dizemos “eu amo”, quase sempre imaginamos duas coisas: alguém que ama e alguém que é amado.

Há um “eu” deste lado e um “outro” do outro lado.

Mas talvez exista uma dimensão do Amor anterior a essa divisão.

Essa é uma das perguntas que atravessam Antes da Consciência, o Amor: se tudo aquilo que conhecemos aparece na consciência — o corpo, os pensamentos, as lembranças, o mundo e até mesmo a sensação de ser uma pessoa — o que poderia haver antes disso?

Nisargadatta Maharaj conduzia seus interlocutores repetidamente para a própria sensação de existir: o simples “Eu Sou”, anterior a “eu sou isto” ou “eu sou aquilo”.

Mas sua investigação não terminava aí.

Até mesmo o “Eu Sou”, segundo ele, aparece.

E tudo aquilo que aparece não pode ser o último fundamento.

Então surge uma pergunta desconcertante:

O que permanece quando até a consciência desaparece?

O livro propõe aproximar essa questão da linguagem espiritual de Um Curso em Milagres.

O Curso afirma que nossa verdadeira realidade não pertence ao mundo da separação. Aquilo que Deus criou permanece em Deus, e a separação nunca alterou a Realidade.

Nesse ponto, duas linguagens aparentemente muito diferentes começam a se aproximar.

Nisargadatta fala do Absoluto, anterior à consciência.

O UCEM fala de Deus, da perfeita Unidade e do Amor que não pode ter oposto.

Talvez estejamos diante de duas maneiras de apontar para aquilo que não pode realmente ser descrito.

O Amor antes do relacionamento

Estamos acostumados a pensar no amor como relação:

“Eu amo minha esposa.”

“Eu amo meu filho.”

“Eu amo Jesus.”

“Eu amo Deus.”

Tudo isso possui profundo valor no nível da experiência humana.

Mas existe uma pergunta ainda mais radical:

E se o Amor não começar quando alguém ama alguma coisa?

E se o Amor for anterior ao próprio “alguém”?

Nesse caso, amar não seria fundamentalmente uma ação realizada pelo indivíduo.

Seria aquilo que resta quando a separação entre indivíduo e indivíduo deixa de parecer absoluta.

Enquanto existe a pessoa, o amor pode aparecer como carinho, cuidado, perdão, compaixão e proximidade.

Mas em sua origem talvez o Amor não pertença à pessoa.

A pessoa acontece dentro dele.

O ego diz: “Eu amo”

O ego precisa de posições.

Eu e você.

Meu e seu.

Ganhar e perder.

Ser aceito e ser rejeitado.

Ter e não ter.

Até o amor pode ser transformado em posse:

“Você é meu.”

“Preciso que você me ame.”

“Sem você não consigo ser feliz.”

O amor então se mistura com medo.

E onde existe medo de perder, existe implicitamente a crença de que algo realmente pode nos faltar.

O UCEM procura desfazer exatamente essa crença.

O Amor verdadeiro não completa uma falta.

Ele revela que a falta nunca pertenceu à nossa realidade.

Por isso o perdão ocupa um lugar tão central no Curso.

Perdoar não significa simplesmente ser bondoso com outra pessoa.

Significa começar a perceber que a separação que parecia absoluta talvez nunca tenha ocorrido na Realidade.

Antes de ser alguém

Enquanto acredito ser apenas esta biografia, preciso defender minha história.

Meu passado.

Minha imagem.

Minhas opiniões.

Minhas feridas.

Minhas conquistas.

Meu corpo.

Mas antes de tudo isso existe o simples fato de ser.

E talvez seja justamente quando a compulsão de sustentar a pessoa começa a diminuir que algo muito simples se revela.

Não uma experiência espetacular.

Não uma iluminação cinematográfica.

Não uma voz dizendo que finalmente chegamos.

Apenas uma espécie de silêncio.

E nesse silêncio talvez descubramos algo extraordinário:

o Amor não precisava ser produzido.

Ele estava encoberto pelo esforço constante de sermos alguém separado.

Jesus e o desaparecimento da distância

Quando Jesus nos convida a amar o próximo, podemos compreender esse ensinamento em muitos níveis.

No nível mais profundo, porém, talvez amar o próximo seja reconhecer que aquilo que considerávamos totalmente “outro” nunca esteve verdadeiramente separado de nós.

Não porque os corpos sejam um.

Os corpos continuam diferentes.

As personalidades continuam diferentes.

As histórias continuam diferentes.

Mas aquilo que somos em Deus não conhece separação.

Por isso o Amor não precisa destruir as diferenças do mundo.

Ele apenas deixa de confundi-las com a Verdade.

Talvez o Amor seja o que resta

A mente pergunta:

“O que existe antes da consciência?”

E espera uma resposta.

Uma definição.

Um conceito.

Mas qualquer resposta que apareça já apareceu na consciência.

Talvez seja por isso que os grandes ensinamentos espirituais terminem muitas vezes diante do silêncio.

Não porque nada exista ali.

Mas porque aquilo que é anterior às palavras não pode caber nelas.

O livro Antes da Consciência, o Amor parte justamente dessa fronteira.

Nisargadatta aponta para além do “Eu Sou”.

O UCEM aponta para além do sonho da separação.

Jesus aponta para um Reino que não é deste mundo.

E talvez, no limite de todos esses caminhos, permaneça uma única Realidade impossível de possuir ou explicar.

Podemos chamá-la de Absoluto.

Podemos chamá-la de Deus.

Podemos simplesmente chamá-la de Amor.

Não o amor que alguém possui.

Mas o Amor que permanece quando já não precisamos ser alguém para existir.

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