O observador é o observado: onde nasce o conflito

Jiddu Krishnamurti repetiu durante décadas uma frase aparentemente estranha:

“O observador é o observado.”

À primeira vista parece apenas um jogo de palavras.

Mas tente observar uma coisa muito simples.

Você está com raiva.

Imediatamente surge a sensação de que existem duas coisas:

eu, de um lado;

a minha raiva, do outro.

Então começa o trabalho:

“Preciso controlar esta raiva.”

“Preciso compreender por que estou assim.”

“Não deveria sentir isso.”

“Tenho que me livrar disso.”

Nesse momento já existe conflito.

Mas será que havia realmente duas coisas desde o início?

Onde está aquele que observa a raiva?

Olhe com cuidado.

Quando a raiva está acontecendo, existe realmente uma pessoa separada dela, observando-a à distância?

Ou existe simplesmente aquele movimento — tensão, calor, pensamentos, impulso — e só depois a mente diz:

“Eu estou com raiva.”

O nome cria uma divisão.

De um lado aparece o “eu”.

Do outro aparece aquilo que o “eu” pretende controlar.

Krishnamurti percebeu algo extraordinariamente simples: muitas vezes o próprio observador faz parte daquilo que está observando.

Ele não está fora do problema.

Ele é parte do mesmo movimento.

O comentário alimenta aquilo que queremos eliminar

Imagine o barulho insistente de uma obra na casa vizinha.

O som acontece.

Depois aparece a irritação.

E logo começa o comentário:

“Que inferno.”

“Isso não vai acabar nunca?”

“Eu precisava justamente de silêncio hoje.”

“Como alguém consegue ser tão inconveniente?”

Repare que, a cada nova frase, a irritação ganha combustível.

Então experimente apenas perceber a irritação sem imediatamente transformá-la em um problema que “você” precisa resolver.

Não tente expulsá-la.

Não diga que ela é errada.

Não tente tornar-se uma pessoa espiritual que não se irrita.

Apenas olhe.

Nos pequenos momentos em que o comentário cessa, algo curioso pode acontecer: a irritação perde parte de sua força.

Não porque você venceu a raiva.

Mas porque talvez fosse justamente a luta contra ela que a estivesse alimentando.

O pensador é o pensamento

A mesma observação vale para os pensamentos.

Você se lembra de uma conversa desagradável.

Horas depois continua pensando:

“Eu não deveria ter dito aquilo.”

“Ele deve estar pensando mal de mim.”

“Por que eu sempre faço isso?”

A sensação é de que existe alguém — “eu” — preso aos próprios pensamentos.

Mas onde está esse “eu” separado?

Talvez exista apenas pensamento acontecendo.

E, dentro desse movimento, aparece também o pensamento:

“Eu sou aquele que está pensando.”

Isso muda radicalmente a pergunta.

Em vez de:

“Como posso controlar meus pensamentos?”

surge:

“Existe realmente alguém separado deles para controlá-los?”

A fábrica do conflito

Se existe um “eu” de um lado e um problema do outro, a vida interior transforma-se numa obra interminável.

Há sempre alguma coisa para corrigir.

Uma emoção a eliminar.

Um pensamento a controlar.

Um medo a superar.

Uma personalidade a aperfeiçoar.

Um estado espiritual a alcançar.

O presente torna-se apenas uma preparação para um futuro em que finalmente estaremos bem.

Mas esse futuro nunca chega, porque aquele que tenta chegar lá é recriado pelo próprio conflito.

Há sempre um novo problema e, portanto, um novo observador encarregado de solucioná-lo.

E o que isso tem a ver com o Amor?

Muito.

Porque também imaginamos o amor como uma ponte entre duas entidades separadas.

“Eu amo você.”

Há um “eu”.

Há um “você”.

E existe uma distância que o amor deverá atravessar.

Mas se a separação psicológica entre observador e observado é, em parte, fabricada pela mente, talvez grande parte daquilo que chamamos de amor esteja tentando resolver uma distância que nós mesmos ajudamos a criar.

Daí nasce uma possibilidade muito diferente de Amor.

Não o amor como uma emoção viajando de uma pessoa para outra.

Mas o Amor como aquilo que permanece quando a divisão diminui.

Quando, por um instante, você olha para outra pessoa sem imediatamente compará-la, julgá-la, classificá-la ou transformá-la numa imagem construída pela memória.

Nesse instante não existe tanta distância.

E talvez seja exatamente aí que o Amor começa a aparecer.

Nisargadatta chega por outro caminho

Nisargadatta Maharaj realiza uma investigação semelhante, embora use uma linguagem diferente.

Ele pergunta:

Quem é esse “eu” que afirma estar vivendo tudo isso?

Corpo?

Pensamento?

Memória?

Consciência?

Cada resposta observada transforma-se novamente em algo percebido.

E aquilo que pode ser percebido não pode ser o conhecedor último.

Krishnamurti desmonta a divisão observando o movimento psicológico.

Nisargadatta desmonta a identidade perguntando quem é o observador.

Os caminhos parecem diferentes, mas em determinado ponto aproximam-se.

Um pergunta:

Existe realmente um observador separado daquilo que observa?

O outro pergunta:

Quem é você antes de tudo aquilo que pode observar?

Talvez não seja necessário vencer a mente

Essa é talvez a consequência mais libertadora.

Você não precisa transformar sua mente numa inimiga.

Não precisa destruir pensamentos.

Não precisa lutar contra sentimentos.

Não precisa fabricar uma versão espiritualmente melhor de si mesmo.

Pode simplesmente começar a observar quando a divisão acontece.

A irritação surge.

Depois surge:

“Eu não deveria estar irritado.”

O medo surge.

Depois:

“Eu preciso acabar com este medo.”

O pensamento surge.

Depois:

“Por que eu penso tanto?”

Nesse segundo movimento nasce o conflito.

E talvez o primeiro passo não seja resolver o conflito.

Talvez seja apenas enxergar como ele é criado.

Krishnamurti não dizia:

“Acredite em mim.”

Dizia, essencialmente:

Olhe.

Veja se isso acontece em você.

Porque, se o observador realmente não estiver separado do observado, talvez a paz não esteja no fim de uma longa batalha interior.

Talvez ela comece exatamente quando percebemos que nunca houve dois combatentes.

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