Existem obras musicais que parecem descrever uma emoção, e existem outras que nos conduzem ao lugar de onde as próprias emoções parecem nascer. “Der Abschied” (“A Despedida”), último movimento de Das Lied von der Erde (A Canção da Terra), de Gustav Mahler, pertence a essa segunda espécie.
Ele dura quase meia hora, mais do que muitas sinfonias inteiras. Mas sua verdadeira dimensão não se mede em minutos. A música parece suspender o tempo comum. Avança lentamente, hesitante, como se cada som relutasse em desaparecer.
Mahler compôs A Canção da Terra durante um dos períodos mais sombrios de sua vida. Em 1907, perdeu a filha pequena, Maria, deixou seu cargo na Ópera da Corte de Viena e descobriu que sofria de uma grave doença cardíaca. A morte deixara de ser uma ideia abstrata. Tinha entrado em sua casa.
Mas Der Abschied não é simplesmente um lamento.
Seu texto, adaptado de antigos poemas chineses, fala do anoitecer descendo sobre a Terra, das montanhas mergulhando na escuridão, dos pássaros silenciando e de um amigo que espera para se despedir. Tudo se prepara para partir.
A orquestra parece respirar junto com essa paisagem. Longos silêncios surgem entre as frases. Um gongo grave soa como algo vindo de uma distância imensa. A cantora não apenas canta; em certos momentos, a voz parece falar da fronteira entre presença e ausência.
E pouco a pouco a despedida pessoal se transforma em alguma coisa maior.
Aquele que parte já não está apenas se despedindo de outra pessoa. Está se despedindo do mundo como algo que poderia possuir.
Árvores, montanhas, vales, luar, amizade, memória — tudo permanece belo precisamente porque nada pode ser retido.
Talvez esteja aí a estranha revelação que ocupa o centro de Der Abschied: a impermanência não destrói a beleza. Ela cria as condições para que a beleza possa ser reconhecida.
Mahler não vence a morte.
Faz algo mais sutil.
Deixa de discutir com ela.
Perto do final, depois de uma imensa viagem musical, a voz canta que a querida Terra voltará a florescer na primavera. Então chega um dos finais mais extraordinários de toda a música ocidental.
A cantora repete uma única palavra:
Ewig.
Eternamente.
Outra vez:
Ewig.
E novamente.
A orquestra torna-se cada vez mais suave. Os limites da música começam a se dissolver. Não há um acorde final triunfante, nenhuma declaração de que a morte foi vencida, nenhuma resposta dramática ao mistério.
A música simplesmente desaparece.
Mas a palavra permanece:
Eternamente.
O que significa esse “eternamente”?
Certamente não a continuação indefinida da personalidade individual. Mahler não nos oferece a imagem consoladora de alguém permanecendo para sempre exatamente como era. O indivíduo parte. O mundo continua. A primavera retorna. A Terra volta a florescer.
E, no entanto, alguma coisa na música se recusa a chamar esse desaparecimento de aniquilação.
Talvez seja por isso que Der Abschied possa soar profundamente espiritual sem apresentar doutrina alguma. Ele permite que duas percepções aparentemente contraditórias coexistam:
Tudo passa.
E:
Algo não passa.
Mahler nunca nos diz o que seria esse algo.
Talvez esse silêncio seja a sabedoria mais profunda da obra.
O ego gostaria que eternidade significasse: eu continuarei para sempre.
Mas Der Abschied parece insinuar algo muito mais misterioso:
Talvez a eternidade comece justamente onde termina a exigência de que eu continue.
A despedida, portanto, não é apenas uma despedida da vida.
Pode ser também a despedida daquele que acreditava que a vida lhe pertencia.
E quando a voz finalmente desaparece no silêncio, Mahler nos deixa diante de uma pergunta que a música talvez seja capaz de formular com mais força do que a filosofia:
Quando tudo aquilo que pode desaparecer tiver desaparecido, o que resta?
A orquestra não responde.
Silencia.
E talvez essa seja a resposta.

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