O Absoluto e o Vazio

Em muitos aspectos isso se aproxima bastante do conceito de “Vazio” em certas correntes do budismo, especialmente o Madhyamaka de Nagarjuna. Mas há diferenças importantes.

O ponto de contato mais forte é este:

> a realidade última não pode ser transformada em objeto de conhecimento.



Tanto em Maharaj tardio quanto no budismo mais radical:

toda identidade fixa colapsa;

toda substancialidade dissolve;

até a consciência pode ser vista como fenômeno condicionado;

e o “eu” não encontra fundamento sólido.





A proximidade

Quando Maharaj diz:

> “O Absoluto não sabe que é”,



isso lembra o Vazio (Shunyata) porque:

o real último não é um “ser supremo consciente”;

não é um ego cósmico;

não é uma entidade metafísica pessoal;

não é uma substância detectável.


No Madhyamaka, o Vazio não significa “nada existe”, mas:

> nada possui existência inerente independente.



Tudo:

surge dependente,

relacional,

sem essência fixa.


Até:

consciência,

sujeito,

iluminação,

nirvana


são vazios de substância própria.

Isso dialoga fortemente com o Maharaj tardio.




Mas há uma diferença decisiva

Sri Nisargadatta Maharaj ainda fala, em algum sentido, de um Absoluto anterior à consciência.

Já o budismo Madhyamaka clássico é muito cauteloso com qualquer afirmação ontológica positiva.

Nagarjuna provavelmente criticaria qualquer tentativa de transformar o Absoluto em uma “realidade última existente em si”.

Porque isso poderia virar:

um Ser escondido,

uma substância metafísica,

um Brahman disfarçado.


O budismo radical tenta evitar isso.




O risco do “Absoluto” virar entidade

Por isso o budismo insiste: o Vazio não é:

uma coisa,

uma essência,

um fundo metafísico,

um Absoluto substancial.


É mais uma desconstrução total de todas as fixações conceituais.

Daí a famosa ideia:

> até o vazio é vazio.



Ou seja: não transforme o vazio numa nova metafísica.




Maharaj às vezes quase toca isso

Nos diálogos finais, Maharaj chega muito perto dessa radicalidade negativa:

além de ser e não-ser;

além de consciência e inconsciência;

além de presença e ausência.


Nesses momentos, ele quase entra numa espécie de “advaita apofático” — uma não-dualidade tão extrema que começa a lembrar o vazio budista.

Mas a linguagem dele ainda preserva algo como:

> “há um Absoluto anterior.”



Enquanto o Madhyamaka frequentemente dissolve até essa afirmação.




O curioso paradoxo

No nível experiencial profundo, muitos praticantes relatam aproximações muito semelhantes:

ausência de centro pessoal;

dissolução do sujeito;

colapso da separação;

desaparecimento do “eu” psicológico;

silêncio conceitual.


Mas filosoficamente:

Advaita tende a falar em Brahman/Absoluto;

Madhyamaka evita afirmar qualquer essência final.





Talvez o ponto comum mais profundo seja este

Ambos desmontam a tendência da mente de:

transformar o real em objeto;

agarrar uma identidade;

criar um “alguém eterno”.


E ambos acabam conduzindo a algo que a linguagem não consegue capturar sem distorcer.

Talvez por isso:

Maharaj fala em “Antes da consciência”;

e Nagarjuna fala em “vacuidade de todas as visões”.


Os dois parecem empurrar a mente até um limite onde:

conceito,

identidade,

experiência,

metafísica


começam a falhar.

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