Antes que surgisse o nome, já havia presença.
Antes que a mente aprendesse a dizer “eu”, já havia percepção, silêncio, vida. Depois vieram as lembranças, os desejos, os medos, as comparações e a história pessoal. Pouco a pouco, tudo isso passou a ser chamado de “eu”.
Mas aquilo que somos verdadeiramente não começou com a história.
Os pensamentos mudam. O corpo muda. As emoções mudam. As crenças mudam. Até a imagem que fazemos de nós mesmos muda com o tempo. Contudo, algo permanece presente em todas essas mudanças: a simples consciência de existir.
Ela não precisa ser criada.
Não é necessário alcançar um estado especial, tornar-se mais espiritual ou destruir a personalidade. Basta observar com sinceridade: tudo aquilo que aparece pode ser percebido. O pensamento é percebido. O medo é percebido. A sensação de identidade também é percebida.
Aquilo que percebe não pode ser apenas mais um objeto percebido.
Quando não seguimos imediatamente cada pensamento, um espaço silencioso se revela. Nesse espaço, a vida continua acontecendo, mas o peso de ser um controlador separado começa a diminuir.
Respirar acontece. Ouvir acontece. Pensar acontece. As decisões surgem. As ações seguem seu curso.
A mente diz: “Eu fiz.”
O silêncio apenas testemunha.
Talvez a paz não esteja no futuro. Talvez ela não dependa de corrigirmos toda a nossa história. Talvez a paz seja aquilo que permanece quando, por um instante, deixamos de defender a pessoa que imaginamos ser.
Antes de ser alguém, somos.
E esse simples Ser nunca esteve ausente.

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