Vivemos como se fôssemos apenas o personagem da história: o nome, a idade, o corpo, as lembranças, os medos, os desejos e as opiniões. Esse personagem parece carregar uma missão pesada: defender-se, explicar-se, provar valor, evitar perdas e buscar reconhecimento.
Antes de qualquer papel social, antes de qualquer biografia, existe o simples fato de estar consciente. Não é uma ideia espiritual complicada. É a evidência imediata de que há presença. Algo percebe os pensamentos, sente as emoções, observa o corpo e testemunha o mundo.
Nisargadatta Maharaj apontava para essa direção ao convidar o buscador a permanecer no sentimento puro de “Eu Sou”, antes de se identificar com qualquer forma: “eu sou isso”, “eu sou aquilo”, “eu sou minha história”.
Um Curso em Milagres também nos conduz a essa lembrança, mas pela via do perdão. Ele nos mostra que muito do sofrimento nasce da crença de que somos separados, ameaçados e incompletos. O perdão desfaz essa percepção distorcida e abre espaço para uma identidade mais profunda.
O personagem não precisa ser odiado. Ele apenas não precisa ser confundido com a verdade última. Ele tem suas dores, suas reações, suas fragilidades e suas esperanças. Mas ele aparece dentro da consciência; não é o fundamento dela.
Quando esquecemos isso, cada acontecimento parece absoluto. Uma crítica vira condenação. Uma perda vira fim. Um medo vira destino. Mas quando há lembrança da Presença, a vida continua acontecendo, porém com menos prisão.
Não se trata de fugir do mundo. Trata-se de vê-lo com mais clareza.
O personagem participa da peça.
A Presença conhece o palco.
E o Ser permanece inteiro antes, durante e depois de cada cena.
Gassho.

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