20 de maio de 2026

Calm lake with boat reflecting snowy mountains and morning sky

O Silêncio Antes do “Eu Sou”

Antes de qualquer pensamento, antes de qualquer história pessoal, antes mesmo da sensação de ser alguém, há um silêncio.

Esse silêncio não é vazio no sentido comum. Não é ausência morta. É uma presença sem forma, sem nome, sem esforço. É aquilo que não precisa se afirmar para existir.

Nisargadatta Maharaj apontava para isso ao nos conduzir ao sentimento “Eu Sou”. Primeiro, percebemos: eu sou. Antes de dizer “sou isto” ou “sou aquilo”, existe apenas a simples sensação de presença. Mas mesmo essa presença ainda aparece e desaparece. Ela nasce com a consciência e se recolhe no sono profundo.

O Absoluto está antes disso.

Em Um Curso em Milagres, encontramos uma linguagem diferente, mas um apontamento semelhante: a nossa identidade verdadeira não pertence ao corpo, ao tempo ou ao mundo da separação. O Filho de Deus permanece como Deus o criou. O que sofre é uma imagem aprendida, uma crença temporária, uma identificação com o que nunca fomos de fato.

Enquanto acreditamos ser apenas uma pessoa separada, o mundo parece pesado. Tudo precisa ser defendido: o corpo, a imagem, a opinião, a biografia, o futuro. Há um enorme gasto de energia em sustentar o personagem.

Mas há momentos em que algo relaxa.

Não precisamos destruir o ego com violência. Basta ver que ele é apenas uma construção. Basta retornar ao simples reconhecimento: antes de qualquer papel, eu sou. E, mais profundamente ainda, antes mesmo do “eu sou”, permanece aquilo que jamais nasceu.

O perdão, no sentido do UCEM, não é superioridade moral. É reconhecer que a separação nunca teve realidade última. A investigação de Nisargadatta também nos leva a esse ponto: aquilo que muda não pode ser o que somos.

O corpo muda.
A mente muda.
As emoções mudam.
O mundo muda.
A própria consciência aparece e desaparece.

Mas o que somos, em essência, não é tocado por essas mudanças.

Talvez a paz não seja algo a ser conquistado. Talvez seja apenas aquilo que sobra quando deixamos de insistir em ser o que nunca fomos.

No fim, não se trata de acreditar em uma doutrina. Trata-se de olhar, com honestidade e silêncio, para aquilo que já está presente antes de toda crença.

Gassho.

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