Introdução

À primeira vista, parece haver um abismo entre o áspero e direto mestre de advaita vendendo cigarros em Mumbai e o Jesus metafísico e psicologicamente refinado que dita um curso de milagres a uma psicóloga nova-iorquina. No entanto, ao mergulhar no cerne dos seus apontamentos, descobre-se uma imbricação tão exata que frequentemente soa como se a mesma Verdade falasse dois dialetos de uma língua única. Essa zona de contato não é mero ecletismo espiritual; é o reconhecimento de que a não dualidade radical e o amor sem opostos são uma e a mesma experiência.

O núcleo dessa interseção está na denúncia implacável do eu pessoal como fonte de todo sofrimento. Nisargadatta insiste: “O sentido de ‘eu sou’ é a porta; a pessoa é a prisão.” De modo assombrosamente paralelo, o Jesus do Curso ensina que “o ego é a crença de que és uma mente individual, encerrada num corpo, separada do teu Criador.” Ambos não propõem o melhoramento desse eu, mas a sua desidentificação total. Para Nisargadatta, isso se dá permanecendo na consciência impessoal, o “Eu Sou” anterior a qualquer atributo; para o Curso, isso é o desfazimento do ego através do perdão, que devolve a mente ao estado de Espírito uno e inocente.

A própria natureza do mundo manifesto é vista pela mesma lente. O jnani indiano declara o mundo como uma bolha na superfície do oceano da Consciência, uma aparição sem substância própria que só tem realidade enquanto você lhe confere atenção. Jesus no UCEM é categórico ao chamar o mundo de “sonho”, “alucinação” e “projeção externa de um pensamento interno”. O universo físico não é criação de Deus, mas uma cortina de fumaça fabricada pela mente culpada para esconder a verdadeira Realidade, que é puro Amor não dual. Assim, o conselho de Nisargadatta para “transcender o testemunho e permanecer como o Absoluto” ecoa na meta do Curso de despertar do sonho e aceitar a eterna unidade com o Pai.

Talvez a imbricação mais bela e pragmática esteja no caminho de dissolução do outro. A famosa declaração de Nisargadatta — “O amor diz ‘eu sou tudo’. A sabedoria diz ‘eu sou nada’. Entre os dois, minha vida flui” — encontra seu paralelo exato no princípio central do Curso: a salvação reside na percepção de que os teus interesses não estão separados dos do teu irmão, pois “as mentes são unidas”. O perdão do UCEM não é uma transação entre duas pessoas, mas o reconhecimento não dual de que o que parecia externo e ofensivo era apenas um eco do próprio erro de acreditar na separação. Para ambos os mestres, perdoar é olhar para o aparente outro e lembrar: “Não há outro.”

Por fim, a autoridade com que falam vem do mesmo alicerce: o conhecimento direto, o silêncio que sabe. Nisargadatta fala a partir da morada do Ser, onde nenhum conceito entra. Jesus, no epílogo do Curso, diz: “Não venho como um corpo, nem como uma voz… mas como uma lembrança na mente desperta de que a separação nunca ocorreu.” Ao estudá-los em conjunto, não se está misturando tradições, mas testemunhando como a Verdade, quando despida de acréscimos culturais, fala uma linguagem universal — a da aniquilação do eu ilusório e do despertar na única Realidade que jamais deixou de ser o que É.

Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Nisargadatta e Jesus

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo